Era do Álcool - O lado sujo da energia limpa

Os meios de comunicação deram grande destaque a documento recentemente divulgado (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, Organização das Nações Unidas, fevereiro de 2007) que reforça as evidências científicas de que o aumento da concentração atmosférica de dióxido de carbono, o principal gás do efeito estufa resultante de ações humanas, tem relação com o aquecimento global do planeta. Nos países industrializados, o uso intensivo de combustíveis fósseis, derivados do petróleo, é uma das fontes mais importantes da emissão de dióxido de carbono. Não tendo realizado praticamente nada no sentido de reduzirem as emissões de dióxido de carbono em seus próprios países, governantes e grupos empresariais de outras partes do mundo, Estados Unidos à frente, passaram a demonstrar interesse especial no etanol brasileiro como fonte alternativa de energia em substituição aos derivados do petróleo. Para atender à demanda externa de etanol, haverá expansão da área para o cultivo da cana em várias regiões do país. Em São Paulo, a expansão avança sobre áreas até então usadas por pequenos agricultores para o cultivo de alimentos, consolidando a monocultura da cana e as conseqüências adversas. O etanol, saudado como "energia limpa" por muitos entusiastas, tem os lados sujos no processo de produção: queimadas e exploração dos trabalhadores no corte da cana, para citar somente dois.

Mesmo causando dano ambiental e prejuízo à saúde, persiste a prática das queimadas precedendo o corte da cana. Amparadas em lei estadual, as queimadas só serão totalmente eliminadas em 2031 - daqui a 24 anos, caso não haja medida protelatória. A prática das queimadas obedece à lógica do interesse econômico do setor sucroalcooleiro, mas os prejuízos recaem sobre a população e serviços públicos de saúde. Além de vários gases formados no processo de combustão, as queimadas lançam na atmosfera grande quantidade de fuligem e partículas finas que podem atingir o interior do pulmões. Vários estudos iniciados na década de 1990 mostram que o aumento da concentração de partículas no ar durante a safra da cana aumenta a demanda por cuidados médicos - atendimento ambulatorial ou internações - em decorrência de doenças respiratórias. Tanto as populações rurais como urbanas das regiões canavieiras sofrem os efeitos da poluição atmosférica pelas queimadas, pois as correntes de ar levam as partículas até mesmo para locais distantes do fogo.

A poluição pelas queimadas é somente uma parte do problema da monocultura da cana-de-açúcar. Nas regiões canavieiras de São Paulo, incluídas entre as mais ricas do país, é extremamente dura a vida dos trabalhadores que fazem o corte manual da cana queimada. Geralmente são migrantes temporários vindos das regiões mais pobres do Brasil. A remuneração desses trabalhadores, baseada em produtividade para atingir metas de produção, força o trabalhador a cortar manualmente cerca de 12 toneladas de cana por dia mas não é raro encontrar nos canaviais paulistas trabalhadores que cortam de 15 a 20 toneladas por dia. O excesso de esforço de trabalho em condições precárias pode ter sido a causa da morte de trabalhadores rurais empregados no corte da cana a serviço das empresas do agronegócio nas regiões canavieiras do interior paulista.

O uso intensivo de extensas áreas para a monocultura da cana-de-açúcar implica em maior demanda por recursos hídricos, fato da maior relevância quando se tem presente a crescente escassez de água doce no planeta. Além disso, o uso de grandes quantidades de produtos da agroquímica nos canaviais representa risco de contaminação dos mananciais de água doce superficial e subterrânea, como é o caso do Aqüífero Guarani na região de Ribeirão Preto.

As recentes investidas dos Estados Unidos na direção de um acordo de cooperação com o Brasil na produção de etanol não tem nada a ver com pretensa preocupação do Governo Bush com as alterações climáticas globais. O que está em jogo é o interesse econômico na exploração de terras brasileiras e a motivação geopolítica no controle do destino das nações da América Latina.

José Carlos Manço é médico pneumologista e professor titular aposentado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Publicado na GAZETA DE RIBEIRÃO - 10 de março de 2007 


Por: Dr. José Carlos Manço

 

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